980829-0979-it2A sinuosa estrada que vem da capital Nairóbi avança por 160 km antes de chegar a Entasopia, uma cidade no território dos masai, no Quênia. O asfalto é substituído por areia e terra, e por fim se torna apenas uma trilha de terra que ascende pelas colinas de relevo acentuado e volta a mergulhar na direção do deserto. É uma viagem lenta.

A cidade de quatro mil habitantes fica no final da estrada e além do alcance das linhas de energia. Não tem banco ou agência de correios, os carros são poucos e a infra-estrutura é precária. Os jornais chegam em fardos, a cada três ou quatro semanas. De noite, a maioria das pessoas acende lâmpadas de querosene e velas em suas casas, ou fogueiras em seus barracões, e dorme cedo, excetuados os agricultores que protegem as safras contra elefantes e búfalos.

Entasopia é o último lugar do planeta em que um viajante esperaria encontrar uma conexão de internet. Mas foi aqui, em novembro, que três jovens engenheiros da Universidade do Michigan em Ann Arbor, com apoio financeiro do Google, instalaram uma pequena antena de satélite acionada por um painel solar, a fim de conectar o punhado de computadores do centro comunitário local ao resto do mundo.

Nos últimos anos, o celular emergiu como principal elo de comunicação moderna nas áreas rurais africanas. De 2002 a 2007, o número de quenianos que usam celulares cresceu em quase dez vezes, para por volta de um terço da população do país. A maioria dos quenianos não dispõe de telefones fixos, de acordo com a União Internacional das Telecomunicações (UIT).

Mas muitos dos aparelhos são modelos simples, feitos mais para falar do que para navegar pela web, e as redes sem fio de dados são lentas, com cobertura esporádica. As conexões via satélite são mais rápidas e mais estáveis, e é por isso que estão atraindo interesse de empresas como o Google – como forma de fornecer conexões de internet aos 95% de africanos que, de acordo com as estatísticas da UIT, não dispõem delas.

Ainda que prover acesso à internet esteja fora do modelo de negócios normal do Google, com esse projeto a empresa está estudando de que maneira os obstáculos poderiam ser superados no Quênia e em outras partes da África.

A antena de Entasopia tinha por objetivo operar com pouca manutenção e em condições ásperas por muito tempo. A estação, acompanhada por duas outras em aldeias igualmente remotas, é parte de um esforço mais amplo do Google para levar serviços a comunidades pequenas e excluídas, oferecendo a elas novas ferramentas de acesso à informação, colaboração com colegas distantes e comunicação com amigos e família.

O Google pagou pelo projeto final das estações e cobre os custos mensais do acesso banda larga via satélite. A empresa também investiu na 03b, uma empresa iniciante que espera colocar uma constelação de satélites em operação sobre a Ásia até o final do ano que vem.

“Construir infra-estrutura não é necessariamente o objetivo do Google, mas se você estudar todas as áreas a que a empresa atende, sua entrada aconteceu muitas vezes para preencher uma lacuna”, disse Joseph Mucheru, que dirige o escritório do Google no leste da África. “O mercado deve ver a oportunidade”.

Mas não está claro que haja uma grande oportunidade. O Google não sabe se essas estações de satélite conseguirão bancar seus custos na área rural. As comunidades podem se beneficiar das conexões, mas nem todas dispõem dos meios para bancá-las.

Os custos do acesso banda larga para estações como a de Entasopia podem atingir até US$ 700 ao mês, ainda que conexões mais lentas custem menos, disse Wayan Vota, diretor sênior da Inveneo, uma organização sem fins lucrativos que trabalha para disseminar a tecnologia de internet pela África e pelos países em desenvolvimento. Com a introdução mais ampla dessas conexões – o objetivo da O3b -, o preço poderia cair, diz Vota.

Joseph Kasifu, 40, está usando a internet para tentar ajudar outras pessoas. A família dele opera uma fazenda, mas porque suas pernas foram paralisadas pela poliomielite quando ele era criança, seu trabalho agrícola fica limitado.

Na sociedade masai, ele diz, deficiências como essa são vistas como maus augúrios. Tradicionalmente, os bebês deficientes eram abandonados e suas mães passavam por um ritual de purificação para expulsar os maus espíritos causadores do problema, e o local do nascimento era queimado. Muitas vezes, crianças como essas ficam escondidas na casa da família.

Kasifu é líder de uma campanha de conscientização e de arrecadação de fundos para a construção de um abrigo para essas crianças. Com a conexão via internet, ele pôde subir um vídeo sobre a situação precária que elas vivem. “As mães me procuram e pedem que encontre lugar para seus filhos”, ele diz. “Dói, mas o que posso fazer? Foi essa a origem do meu projeto”.

Mas existem limites significativos para o número de quenianos que a internet pode atingir. Mesmo que esteja disponível gratuitamente, nem todo mundo pode se aproveitar do acesso, devido à baixa alfabetização tecnológica no país.

Fonte: Chris Nicholson / Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times